Monday, November 24, 2014

Filoctetes - Sófocles

Linked by...
Foi a partir de uma outra obra deste autor, que chegamos à leitura de "Filoctetes" de Sófocles. No exemplar de "Rei Édipo" que lemos anteriormente neste blogue, a nota biográfica do autor mencionava várias das suas obras. "Filoctetes" foi o título que escolhemos entre as várias referências, por termos encontrado uma edição disponível em português na Wook.

No entanto, foi na Feira da Ladra, no passado mês de Outubro, que acabei por adquirir o exemplar na foto, que agrega várias das suas obras, intitulado "Tragédias do Ciclo Troiano", e onde "Filoctetes" está também incluído.

Esta é já a quarta deste autor, lida no âmbito do Linked Books. Como poderão confirmar ao ler os posts anteriores, todas elas foram muito do meu agrado, e já aqui tenho mencionado como o Linked Books veio despertar em mim uma autêntica paixão por estes clássicos.

Os títulos já lidos de Sófocles foram até ao momento:
Dadas estas minhas anteriores experiências de leitura, antecipei desde cedo que esta seria mais uma experiência memorável, e é sempre com grande entusiasmo, que vejo surgir estes clássicos na nossa lista de livros a serem lidos.

Nota: posteriormente este título ficou também "linkado" a:
Linked synopsis...

"Nesta peça, a mestria dramática de Sófocles reúne três figuras que encarnam questões morais, sociais e educativas – Filoctetes, Ulisses e Neoptólemo; confronto entre os dois primeiros, tentando cada qual aliciar para a sua esfera de influência o terceiro."


fonte: wook.pt

"Filoctetes é uma obra-prima da maturidade de Sófocles, uma tragédia da última década do século V que põe em causa a própria tragédia, a mais moderna de todas as peças gregas na sua austeridade, no seu despojamento, na confiança absoluta na Palavra. A peça que na opinião de mais de um helenista já foi considerada a mais subtil, a mais perfeita e mais comovente de todas as que até nós chegaram do teatro grego."
fonte: wook.pt
Linked opinion...
Mais uma tragédia magnífica de Sófocles. É impossível não sentir como privilégio, o facto de esta obra ter chegado até aos dias de hoje. Segundo o que pesquisei, foram apenas sete os textos que "sobreviveram" de entre as mais de 125 obras do autor. Esta foi a quarta que li, e foi a quarta que adorei.

No entanto, momentos após terminá-la, senti que esta tragédia não era bem como as anteriores, mas não consegui identificar de imediato por que motivo isso tinha acontecido. Na altura, lembro-me de pensar que a história parecia incompleta. Apesar de ter um princípio e um fim bem definidos, era como se se tratasse de uma sub-história, dentro de uma narrativa maior, como se fosse um capítulo de um livro, ou um dos livros de uma trilogia, tão frequentes na época. A minha pesquisa levou-me a concluir que não há nada que indicie que esta obra seja parte de qualquer outra, pelo que foi necessário reflectir melhor sobre o que tinha lido, e sobre o porquê desta sensação de "diferença" em relação ao que já tinha lido do autor.

Foi só após alguma reflexão que chego às seguintes hipóteses explicativas sobre esta "diferença" por mim sentida:
  • Esta tragédia não contém os "ingredientes" usuais das tragédias de Sófocles anteriormente lidas. É uma narrativa de natureza mais subtil, sem os acontecimentos "fortes" e "trágicos", que "abalam" o leitor.
  • O texto termina, pelo uso do artifício Deus Ex Machina, ou seja, pela intervenção de um Deus, neste caso o semideus Héracles, que irá ditar a conclusão da história. Apesar de ser de enorme interesse literário a utilização deste artifício nos dramas, não posso dizer que me agrade muito quando as histórias terminam desta forma. E neste caso específico, não me parece que fosse forçosamente necessária esta intervenção divina no final.
Não sei se estas minhas duas constatações são suficientes para identificar a "diferença" nesta tragédia, mas devo dizer que ser diferente não foi neste caso algo mau. Esta história é realmente diferente, mais subtil, menos completa, com um final não surpreendente, mas não deixa de ser formidável, e belíssimamente bem contada. Acho sempre extraordinário quando este autores promovem a reflexão sobre temas tão complexos com uma aparente parcimónia de escrita e de enredos.
Basicamente, está um homem abandonado numa ilha, doente (Filoctetes), que é possuidor de uma arma dos deuses (um arco, de Héracles), que Ulisses necessita para conseguir tomar Tróia. Para tal faz-se acompanhar de Neoptólemo, filho de Aquiles, para conseguir ganhar a sua simpatia e confiança. Mas para melhor falar deste enredo, gostaria de o fazer a partir dos seus três personagens principais.

Ulisses é um deles. Um personagem meu "conhecido" da Odisseia, apresenta-se aqui de uma forma um pouco diferente da sua típica imagem de "herói". Ele que foi um dos responsáveis pelo abandono de Filoctetes naquela ilha, por já não poderem suportar os lamentos de dor do doente, nem o cheiro nauseabundo da sua ferida, volta agora para tentar convencê-lo a entregar-lhe o arco de Héracles. Para tal, tenta convencer Neoptólemo a ajudá-lo, uma vez que este é filho de um amigo de Filoctetes (Aquiles). Mas este "serviço" que Ulisses pede a Neoptólemo, não é de natureza nobre, antes pelo contrário. Ulisses deseja que ele engane Filoctetes, por forma a que este entregue o seu arco invencível. É pois, um Ulisses ardiloso que nos surge neste tragédia, convencido (e não há quem o demova desta convicção) de que os meios justificam os fins. Este é o primeiro motivo para reflexão que Sófocles nos concede no seu texto.

Filoctetes, o homem abandonado naquela ilha, vive em grande dor e agonia. Sofre um mal no seu pé, por antigo perjúrio cometido ao revelar o local onde repousavam as cinzas de Héracles. A dor do abandono pelos companheiros concorre com a dor física do mal incurável e quase insuportável. Jurou-se inimigo mortal daqueles que o haviam enganado, e por nada entregaria o seu arco àqueles que o traíram. O relato do sofrimento deste homem é um dos pontos altos desta tragédia, e mais um motivo para reflexão.

Neoptólemo encarna a questão central deste enredo. Dividido entre duas posições irredutíveis, a de Ulisses e a de Filoctetes, não tem uma tarefa fácil. Entre enganar alguém que mereceu a amizade de seu pai, e retirar a esse homem já em grande sofrimento o seu único bem ( o arco ) , a fim de que Tróia seja finalmente tomada, ou recusar-se a prestar esse "serviço" a Ulisses, e tornar-se ele próprio um traidor. Com pouca margem de manobra, este jovem vê-se assim perante este grave dilema, e seja qual for a sua decisão, acarretará para si próprio graves consequências, as quais terá que enfrentar. Se os outros pontos de reflexão não tivessem tocado o leitor, aqui sem dúvida quem lê é obrigado a reflectir sobre este dilema que aflige um dos seus principais personagens.

Resumindo, apesar de um pouco diferente do que já havia lido do autor, é uma tragédia excelente, e mais uma vez recomendo este livro, à imagem do que aconteceu com as suas outras obras.

Linked opinions by other bloggers...
Linked books...

A Ilíada - Homero (obra mencionada no prefácio, e para além dessa referência, vários dos seus personagens foram mencionados no texto, como por exemplo Pátroclo, Menelau, Nestor, Fénix, Ájax, Diómedes e Agamemnon)

A Odisseia  - Homero (obra mencionada no prefácio e nas notas, e para além dessas referências, vários dos seus personagens foram mencionados no texto, como por exemplo, Menelau, Nestor, e Agamemnon)

Eneida - Virgílio (obra mencionada nas notas)

Este exemplar que lemos, intitulado "Tragédias do Ciclo Troiano", não contém apenas a obra "Filoctetes" que neste post abordamos. Outros três títulos de Sófocles compõem este edição pelo que a ligação entre eles é inevitável:
Electra - Sófocles
Os Rastejadores - Sófocles

Linked places...
Ciros
(ilha grega no mar Egeu, pátria de Neoptólemo, um dos protagonistas desta tragédia)
Lemnos
(ilha grega onde decorre a acção desta tragédia)

Cefalénia
antigo thema (província civil-militar) bizantino localizado na Grécia ocidental e que abrangia as Ilhas Jónicas 
Pepareto
ilha do Mar Egeu, hoje conhecida por Escópelos (Grécia)
Eta
montanha da Tessália, no sul da Grécia Central
Esparta
antiga pólis da Gécia Antiga
Micenas
sítio arqueológico na Grécia
Linked rivers...
Rio Espérquio (Grécia)
Rio Pactolo (Turquia)
rio do antigo estado da Lídia
Linked greek gods and demigods...
Hermes
(deus olímpico, filho de Zeus e de Maia, deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da divinação, das estradas e viagens)
Atena
(conhecida também por Palas Atena, deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia em batalha, das artes, da justiça e da habilidade)
Héracles
(semi-deus, filho de Zeus e Alcmena, herói dotado de grande força e sagacidade, tornado célebre sobre o nome de Hércules)
Asclépio
(deus da medicina e da cura)
Apolo
(deus olímpico, filho de Zeus e Leto, deus da divina distância, identificado como o sol, e a luz da verdade)
Hades
(deus do mundo inferior e dos mortos)
na imagem: Hades e Cérberus
Cibele
deusa mãe, simbolizava a fertilidade da natureza
(foi mencionada nas notas, e não no texto da tragédia)
Centauro Nesso(foi mencionado nas notas, e não no texto da tragédia)
na imagem: Héracles e Nesso
Linked mythological mortals...
Laertes, pai de Ulisses
(escultura onde estão ambos representados)

Peias
Rei da Melibeia, pai de Filoctetes (protagonista nesta tragédia)

nota: não conseguimos obter qualquer imagem de Peias
Sísifo
(filho do rei Éolo, da Tessália, e considerado o mais astuto de todos os mortais)
na imagem: "Sisyphus" do pintor italiano Titian
Teucro
(herói da mitologia grega, especializado no uso do arco)
na imagem: "Statue of Teucer" por Sir William Hamo Thornycroft
Térsites
combatente grego na Guerra de Tróia, anti-herói, feio, coxo, mentiroso, e imprudente com as palavras. Acabou por ser morto por Aquiles por dele ter zombado.
na imagem à esquerda com a tocha (pintura de Angelica Kauffman, datada de 1789)
Antíloco
filho de Nestor, acompanhou seu pai na Guerra de Tróia
Pátroclo e Menelau
Pátroclo era filho de Menécio, primo e por vezes considerado amante de Aquiles, combatente na Guerra de Tróia. Menelau foi um rei lendário da Lacedemónia, o rapto de sua mulher Helena, deu origem à Guerra de Tróia.
na imagem:  Menelau apoiando o corpo de 
Pátroclo
Nestor
 rei de Pilos, e argonauta 
Fénix
perceptor de Aquiles
na imagem: Fénix e Briseis
Ájax
frequentemente referido como Ájax, O Grande, foi um dos participantes na Guerra de Tróia
Diomedes
filho de Tideu, e um dos mais valentes herói da Guerra de Tróia
Agamémnone
distinto herói grego, e irmão de Menelau
na imagem: "The Mask of Agamemnon", decoberta em Micenas
Licomedes
Rei de Ciros, e avô de Neoptólemo (um dos protagonistas desta tragédia)

na imagem: Aquiles na corte do rei Licomedes
Linked looked up words...
crono - periodo de tempo que cada terreno levou a formar-se [geologia].
éneo - de bronze, feito de bronze; duro como o bronze [figurado].
ignífero - que traz fogo; que arroja fogo.
jucundo - que é agradável, aprazível; que demonstra alegria, jovialidade.
opróbrio - desonra pública; afronta muito grave; abjecção extrema.
outiva - faculdade de ouvir (audição, ouvido); acto de ouvir.
solércia - astúcia; habilidade para enganar; velhacaria; finura; esperteza.
tonante - que troveja; vibrante, forte [figurado]; epíteto dado a Júpiter [linguagem poética e mitologia].
transe - duelo, combate.

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