Saturday, February 8, 2014

Morte em Veneza - Thomas Mann

Linked by...
Thomas Mann foi mencionado por John le Carré no seu livro Guerra de Espelhos. Ao procurar uma obra do autor mencionado, esta foi a primeira que encontrei  disponível na Winking Books para troca.
Os "likes" à foto da capa que que foi colocada na nossa página no Facebook e os comentários positivos à mesma, fizeram-me antever uma excelente leitura.  Para além disso, o autor foi Prémio Nobel da Literatura em 1929, e é uma referência da literatura alemã e do romance, pelo que não me parecia haver qualquer razão para que esta leitura pudesse correr menos bem.

Linked opinion...
Esta será talvez  a opinião mais difícil que tive que dar até ao momento. Acontece que fiquei muito dividida sobre o que dizer sobre este livro, pelo que pensei que o melhor seria dividir a minha opinião em pontos fortes e pontos menos fortes para simplificar.

São muitos os pontos fortes deste livro. Em primeiro lugar é um produto literário magnífico. O autor manuseia as palavras de forma genial, criando um discurso cativante e ambíguo que leva o leitor a imergir-se por completo na ambiguidade do enredo e dos sentimentos do personagem principal (Aschenbach).

Um outro ponto forte, foi a forma como o autor trata o conceito de "beleza", daquilo que é puro e belo. Para tal faz-se valer de um sublime engenho linguístico, que tem como alavanca a pureza, inocência e beleza idealizada de um rapaz adolescente (personagem de nome Tadzio), e o exotismo, beleza e magnificência da cidade de Veneza (local da acção).

Algo que também achei fantástico neste livro, foi como o autor consegue fazer passar esta história, mantendo o fascínio que Aschenbach sente por Tadzio envolto numa capa de admiração platónica pela beleza em si mesma, como se admirasse uma obra arte, isenta de desejo sexual pelo rapaz. No entanto, existe uma altura em que esta admiração é erotizada, ainda que apenas em pensamento pelo personagem principal. Apesar de ter estado até essa altura a fazer um esforço por acreditar nesse amor ou fascínio apenas platónico, deixando-me levar pela ambiguidade do discurso, nesse momento, tudo para mim caíu por terra. E aqui começam os pontos menos fortes.

A partir do momento em que a relação entre os personagens foi erotizada, ainda que tenha sido só em pensamento por parte do personagem principal, tudo se tornou terrívelmente errado para mim. A partir do momento em que Aschenbach leva um pouco mais longe os seus pensamentos, não pude deixar de começar a pensar em Aschenbach de uma forma completamente diferente. Se antes via um artista, amante das artes e do que é belo, em busca de si próprio , tentando reviver de alguma forma a sua própria juventude, bebendo da juventude e da beleza daquele jovem e da cidade de Veneza, depois comecei a  ver um homem abjecto que dissimula as suas perversões, ainda que para si mesmo e de forma bastante hábil, sob a capa da arte . Alguns aspectos de que algo mais doentio poderia estar a acontecer ao íntimo de Aschenbach, tornaram-se evidentes : a obsessão, o voyeurismo, e até a idealização de que os seus sentimentos eram de alguma forma retribuidos, ao interpretar erradamente gestos ou olhares casuais do adolescente. Tão doentios que o levam a um desenlace trágico, tal como o título do livro indica. Devo realçar que a questão da homosexualidade me é totalmente indiferente. O meu problema aqui é o "roçar" de elementos que remetem para a pedofilia. Se Tadzio fosse uma rapariga adolescente, seria exactamente igual a minha opinião. Ainda que Aschenbach nunca tenha (felizmente) transformado o seu desejo em comportamento, isso não quer dizer que esteja menos errado.

O ponto exposto anteriormente foi o meu principal motivo de desagrado, mas também fiquei um pouco desiludida com o próprio enredo. A história quase não existe. Já tinha mais de metade do livro lido e não tinha acontecido rigorosamente nada. É claro que a habilidade literária do autor disfarça o facto de que  não tem nada para contar, mas ainda assim, gostaria de ter tido maior complexidade no enredo.

Um outro ponto menos forte deste livro e aqui Thomas Mann não tem qualquer ónus, é a edição que li. Em primeiro lugar a capa não é adequada ao livro, pois dá a sensação de que vamos ler um policial de categoria B, e em segundo, o texto tem bastantes gralhas e incorrecções. Aconselho, caso desejem ler este livro, a escolherem uma outra edição.

Resumindo, não sei o que vos diga... Este não seria um livro que eu aconselharia os meus amigos a lerem, pelo que não o faço aos seguidores deste blogue. No entanto, como são curiosos, e famintos por boa literatura, aconselho a não se ficarem com a minha visão enviesada pela minha moral e valores, e que vejam as opiniões dos outros bloggers que coloquei acima, para poderem decidir se de facto é um livro que desejam ler.

Linked opinion by other bloggers...
por Filipe de Arede Nunes no blog Biblioteca Transmissível
por Carla Ribeiro em As Leituras do Corvo
por Carlos Faria em GEOCRUSOE

Linked books...
Odisseia de Homero (foram mencionados os Feaces)

Dicionário Filosófico - Voltaire ( Voltaire foi mencionado. No blogue temos já dois títulos deste autor, nomeadamente Cândido e O Ingénuo. Dicionário Filosófico já se encontrava na nossa lista de livros a ler, pelo que optámos por esse título para representar esta menção ao autor)

Fábulas - Fedro (foi mencionado o autor, tendo sido escolhido este título para representar esta referência)

Linked movies...

filme completo AQUI
Linked places...
Prinzregentenstrasse (Munique, Alemanha)
Trieste (Itália)
Costa da Istria
Lido (Veneza, Itália)
São Marcos (Veneza, Itália)
Hotel Excelsior (Veneza, Itália)
Grande Canal (Veneza, Itália)
Ponte de Rialto (Veneza, Itália)
Como (Itália)
Astracã (Rússia)
Toulon (França)
Calábria (Itália)
Apúlia (Itália)
Paros (Grécia)
 Linked historical events...
A Guerra dos Sete Anos
Linked army corps...
Bersaglieri
Linked mythological figures...
Jacinto
Eros
Sémele
Aqueloo
Linked latin... 
 "Motus Animi Continuus" - Cícero (106 A.D. - 43 A.D.)
significa o trabalho contínuo e perpétuo da mente, e o despertar da consciência, que Cícero considerava a essência da eloquência. 

Linked looked up words...
antitética - que encerra antítese.
cerúleo - azul-celeste; verde-mar.
escamoteador - aquele que escamoteia;  prestigitador; gatuno de golpe; caixilho para abrigar da luz as chapas fotográficas.
escamotear - fazer desaparecer de modo que não se perceba; roubar com subtileza; esconder ou encobrir algo.
rapapé - mesura, cortesia que se faz arrastando o pé para trás; exagero no cumprimento.
metílico - diz-se dos compostos derivados do metano.
vibrião - género de bactérias alongadas com forma curva ou inflectida.
cendrado - da cor das cinzas.
clorose - doença feminil caracterizada por uma palidez esverdinhada e excessiva fraqueza.
clorótico - da clorose ou a ela relativo.
miasma - emanação morbífica, proveniente de substâncias orgânicas em decomposição.

1 comment:

  1. Eu simplesmente detestei este livro... tal como dizes,não se passa nada durante páginas e páginas e no meu caso desde o inicio senti que Aschenbach sentia por Tadzio algum desejo sexual o que me levou a detestar da personagem de imediato. Sim o livro pode até estar bem escrito mas não chega... arghhhhhhh como eu detestei esta história... mas tenho de admitir que está muito bem escrito, nisso Mann foi brilhante!

    ReplyDelete